5 de August de 2020

Televisão

DIGESTIVOS

Televisão

Segunda-feira,
12/5/2014

Televisão
Julio
Daio Borges



J.BOSCO


Digestivo nº 500

Luciano do Valle (1947-2014)
Luciano do Valle foi Galvão Bueno antes de Galvão Bueno. E, principalmente, melhor que Galvão Bueno. Quando o tom oficialesco de Galvão Bueno se consagrou na TV Globo, era na TV Bandeirantes que os telespectadores iam buscar refúgio. Luciano do Valle driblou a correção política ao dar espaço a um desbocado Silvio Luiz, nos anos 80, e a um nada sofisticado Neto, nos anos 90. E, em vez de repousar sobre os louros da fama, abriu novas frentes para a transmissão esportiva. Quem viveu os anos 80 se lembra de Bernard, e sua “jornada nas estrelas”, Montanaro, William e Xandó, a chamada “geração de prata” do vôlei brasileiro. Assim como quem viveu os anos 90 obviamente se lembra de Marcelo Negrão, Tande, Giovane e Maurício, que conquistaram, efetivamente, o ouro para o Brasil. Luciano do Valle forjou, igualmente, carreiras como as de Hortência e Paula, no basquete feminino. E, mais discutivelmente, a de Adilson Rodrigues “Maguila“, no boxe. Quando o Brasil descobria a NBA, Luciano do Valle apelidou Paula de “Magic Paula” (evocando Magic Johnson). E quando o mundo se espantava com Mike Tyson, quis, com o “professor” Newton Campos, que o Brasil tivesse, nos pesos pesados, seu representante. (Não durou dois rounds com Evander Holyfield, em 1989, para a decepção geral da nação.) Em sua primeira encarnação, Luciano do Valle juntou-se à equipe esportiva da Globo durante a cobertura da Copa de 70. Consagrou-se, nessa década, quando cobriu as principais vitórias de Emerson Fittipaldi na F1. Depois da Copa da Espanha, em 82, saiu da Globo para a Record, mas fez escola mesmo, a partir de 83, na Bandeirantes. Praticamente criou o “Canal do Esporte”, apostando em transmissão esportiva maciça, aos domingos, com o Show do Esporte. (Quando não competia com Galvão Bueno, estava competindo com ninguém menos que Silvio Santos.) Luciano do Valle ainda foi pioneiro da Fórmula Indy no Brasil e quis fazer até o futebol americano cair no nosso gosto. Exageros à parte, ficamos sem alternativa na próxima Copa do Mundo, justamente a do Brasil. Não dá para comparar Luciano do Valle com Milton Neves ou ― pior ― com José Luiz Datena. Mas pior ainda será Galvão Bueno reinando absoluto na Globo. O homem que já esculhambou Pelé, em pleno Tetra, sofreu a campanha do “Cala a Boca, Galvão”, na última Copa, e não abaixou a crista, aparentemente não será detido em pleno voo, nem pela proverbial sinceridade de Casagrande. Cléber Machado? É muito bom-mocismo para um locutor só… Mas voltando a Luciano do Valle, o fato é que a TV Bandeirantes deve-lhe muito, para não dizer tudo. Antes de ser hoje esse player representativo da comunicação brasileira, o Grupo Bandeirantes contou com a visão, o pioneirismo e a grande capacidade de realização do campineiro Luciano do Valle Queirós.
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Luciano do Valle
 


Digestivo nº 496

A morte da MTV Brasil
Desde o advento da internet, a MTV já foi acusada de muita coisa. No auge do MySpace (quando da aquisição por Rupert Murdoch), a MTV foi acusada de não ter inventado as redes sociais. Afinal, na década de 90, a emissora tinha o público jovem “na mão”… Por analogia: por que a MTV não inventou o Facebook, ou o Instagram? (Ou, no Brasil, o Orkut?) Também já acusaram a MTV de não ter inventado o YouTube. Afinal, a emissora detinha o monopólio dos vídeos musicais em décadas anteriores… Acontece que a Blockbuster não inventou o Netflix. Nem a Barnes Noble inventou a Amazon. Do mesmo jeito, as gravadoras não inventaram o iTunes, nem a Apple (apesar de existir, originalmente, uma gravadora com esse nome). A verdade é que ninguém detém o monopólio da inovação. Nem empresas “de ponta”. E trabalhar com público jovem não é garantia de nada. É garantia, talvez, de que você pode passar de moda. No Brasil, a MTV local foi “tendência” nos anos 90. Tanto que influenciou a linguagem da televisão brasileira no período. Mas, a partir dos anos 2000, a MTV Brasil, assim como sua matriz, perdeu o norte. O negócio da música, com a pirataria e o download, deixou de ser o que era. Com as gravadoras em crise, a MTV perdeu seu alicerce: a veiculação de clipes (jabá?). A programação, no Brasil, deu uma guinada “comportamental”. O alvo continuou sendo o público “jovem”, mas o consumo deixou de ser direcionado para a música. A MTV Brasil poderia ter retirado o “M” do nome, porque funcionava nos moldes de uma TV qualquer, ou de um canal, dependendo de publicidade. E a MTV Brasil lançou humoristas, além de VJs, que foram alçados ao mainstream. Mas por que a MTV não teve a ideia do Porta dos Fundos? (Seguem as perguntas.) Ainda assim, o grosso do faturamento da emissora se concentrava num único evento anual, o VMB, o “oscar” da MTV Brasil, com shows e apresentadores em performances que pretendiam entrar para a História. Com a última reestruturação do Grupo Abril, que descontinuou títulos como Alfa e Bravo!, e ameaçou pilares como Playboy e Capricho, a MTV Brasil acabou sacrificada. Sua “morte” foi dramática, com direito a contagem regressiva e o retorno de VJs que marcaram época e que haviam sumido do mapa. A geração que assistiu ao nascimento da emissora, nos primórdios da década de 90, se comoveu. Mas e a geração de jovens que cresceu com a internet? O canto do cisne, que deve ter retirado a audiência do traço, não foi suficiente, contudo, para reverter o processo. A MTV Brasil, apesar dos pesares, não “morre”. Ela retorna às mãos de sua controladora original, a Viacom. E qual é o legado dessa primeira encarnação da MTV para o Brasil? Será que é musical? Será que é a de ter atualizado o “gosto” para um padrão mais “globalizado”? Será que é ter promovido encontros musicais nos VMBs? É mais provável que sua contribuição tenha menos a ver com o “M” do que com o “TV”. Se o rock brasileiro dos anos 80 descobriu a juventude como mercado, a MTV Brasil descobriu como audiência televisiva. É óbvio que a síndrome de Peter Pan cansa, mas não foi a MTV que inventou, foi o rock ― e a internet, desde os “diários de adolescente” (blogs?), não tem feito muito para reverter esse quadro…
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O fim da (primeira) MTV Brasil
 


Digestivo nº 466

House, 6ª Temporada
Se começou como uma das melhores temporadas de House — com Gregory no hospital psiquiátrico —, a Sexta terminou com uma das piores audiências desde a Primeira. Desde que perdeu a equipe que o consagrou, House vinha tentando reestruturá-la e as últimas temporadas foram basicamente sobre isso. Como ninguém mais aguentava seus processos de seleção — e as mortes, na equipe —, os roteiristas acharam por bem devolver-lhe Chase e Foreman, acrescidos de Taub e de “Thirteen”. Cameron se afastaria (com o fim de seu casamento), Wilson perderia traumaticamente a namorada, ciceroneando House (no novo apartamento), enquanto Cuddy se amancebaria com Lucas… A Sexta temporada foi importante para, inicialmente, enfraquecer o personagem todo-poderoso de Hugh Laurie. Afinal, ao ceder à internação no hospital psiquiátrico, House estava admitindo que não conseguia mais lutar contra o vício em Vicodin. Estava admitindo uma fraqueza, uma derrota, e, mais adiante, estava se submetendo a um terapeuta que poderia discutir “de igual para igual” com ele (como até então ninguém havia feito). Nos derradeiros meta-episódios — presentes desde a Primeira temporada —, Cuddy também lhe falaria umas verdades, até porque ela estava noivando, Wilson retomando um casamento, e só ele, House, não conseguia avançar (move on), amadurecer: estava sozinho, estava condenado à solidão. Poderia ser um final demolidor mas um beijo selou uma promessa… para a Sétima temporada. A exemplo de Lost, os roteiristas de House estão ficando sem saída, ou então desistem de ser “coerentes”, como os de 24 Horas. Assim como Jack Bauer — que House, às vezes, cita —, Gregory ou morre por bala (como já quase morreu), ou por vício, ou, finalmente, enlouquece de vez. A mensagem do seriado parece ser: não adianta você ser um gênio, se você não for também… um homem, um ser humano. É uma bonita mensagem, mas o melhor de House talvez sejam os diálogos — até porque Hugh Laurie nunca foi tão engraçado quanto… House.
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House, M.D.
 


Digestivo nº 465

Lost Season Finale
E Lost acabou. Talvez já tivesse acabado em alguma temporada anterior, quando a sobreposição de camadas de “realidade” tornou o final simplesmente impraticável. Primeira metade do avião; outra metade do avião (2ª); outra metade da ilha (3ª); saída da ilha (a ilha dentro de nós) (4ª); a ilha no tempo, retorno à ilha (5ª); morte da ilha, morte do elenco, morte do seriado. “Se a morte é o fim, então, para acabar, temos de matar”, devem ter pensado, e “mataram”. A solução deus ex machina foi simplista, para uma série em que se havia investido tanto… Segundo Nietzsche, o sonho é o grande culpado pela nossa irracionalidade. Se no sonho foi “possível”, inconscientemente passamos a acreditar que é possível também em vigília. Freud assimilou a mensagem, e criou a psicanálise (ainda que finja não ter lido Nietzsche direito). Ao matar todos os personagens, ou simplesmente revelar que estavam todos mortos, os criadores de Lost apelaram para o vale-tudo do sonho. Daí o final alternativo, em que tudo não passava de… um sonho de cachorro… De certo modo, Lost sempre se alimentou das reticências. E, nesse fator “wiki“, residiu, desde o começo, boa parte de seu sucesso. Onde fãs, no sonho que é a internet, podiam construir hipóteses, teorias, soluções para Lost. Talvez por isso J.J. Abrams, um dos criadores da série, quando foi editar a Wired, só tenha falado em mistério, mistério, mistério… Eram as mesmas reticências. Quando teve de preenchê-las, J.J. Abrams mostrou que não estava preparado. Afinal, nas temporadas anteriores, nunca fora necessário… Sempre havia mais uma temporada, para preencher as lacunas. E mais uma. E mais uma… Até que acabou. Como tudo acaba. E J.J. Abrams acabou junto… ;-)
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Lost
 


Digestivo nº 442

Bored to Death, por Jonathan Ames
Detetives existem aos montes, principalmente em subliteratura policial, que se diz baseada em Edgar Allan Poe, mas que, na maioria dos casos, não tem nada que remeta ao grande mestre do conto. Jonathan Ames, por sua vez, é um escritor pouco conhecido, em Nova York, com um trabalho não muito significativo na imprensa, que assiste a seu casamento desabar, quando, num surto de desânimo, e solidão, decide colocar um anúncio no Craigslist, o maior site de classificados da internet, dizendo-se detetive particular e cobrando barato. O que era uma brincadeira, ou uma private joke, acaba virando coisa séria, quando a primeira cliente liga e Jonathan tem, como missão, encontrar sua irmã desaparecida. O detetive iniciante, no entanto, é desajeitado, está deprimido, não sabe quase nada da profissão, a não ser por alguns livros, como os de Raymond Chandler, que leu distraidamente. Fazendo contraponto: seu chefe, um egomaníaco, capaz de arrastar Jonathan para uma cabine de banheiro, a fim de fazer-lhe confissões, ou de telefonar-lhe na calada da noite, para resolver um problema de pele, com um tratamento pouco convencional; também seu melhor amigo, um desenhista de quadrinhos igualmente loser, que tenta recuperar a relação com a mulher, enquanto prejudica o relacionamento de Jonathan e censura-o por sua nova aventura como investigador. O detetive improvisado soluciona o primeiro enigma quase que por acaso. Surge, obviamente, outro, e a porção cômica se sobressai, porque são maiores as trapalhadas — mas Jonathan, sem medo do perigo, sente-se renovado, vivendo uma existência que não é a sua, e que acaba de inventar, graças à internet… Esse é, mais ou menos, o “argumento” de Bored to Death, uma série de TV, assinada por Jonathan Ames (é seu nome verdadeiro), e que estreará na HBO brasileira em breve. Na première, à noite num cinema em São Paulo, havia, além de assinantes de TV a cabo, blogueiros que, por ironia, criaram, igualmente, uma personagem na internet, e que, algumas vezes, até vivem dela… A possibilidade de ser “outra coisa” está instalada e, ainda que Bored to Death não seja da maior profundidade, coloca essa discussão em pauta.
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Bored to Death
 

Julio Daio Borges

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