17 de July de 2019

Dez anos esse cachorrinho Paulo Briguet

Paulo Briguet

 

Há exatamente dez anos, em 10 de julho de 2009, dia do meu aniversário, cheguei em casa depois do trabalho e recebi o presente mais inesperado: um cachorrinho vira-lata. Rosângela acabara de resgatá-lo na rua, durante uma chuva forte.

Quando vi aquele serzinho peludo no sofá da sala, ao lado da Rosângela e de minha mãe, com cara de assustado e rabo entre as pernas, pensei comigo mesmo: 

“Que feio!” 

Com efeito, mesmo depois de tomar banho e receber os primeiros cuidados no veterinário, o vira-lata não constituía nenhum modelo de beleza canina. Magro e pequeno, tinha as patas compridas; a cabeça miúda era desproporcional em relação ao corpo; e os tufos irregulares da pelagem não contribuíam em nada para a harmonia do conjunto. O cachorro era tão estranho que nem parecia cachorro. Talvez fosse uma raposa, um cachorro-do-mato, um lobinho-guará. Acreditamos que era da espécie Canis familiaris porque o Dr. Ricardo disse; porém, só tivemos certeza mesmo quando o bicho latiu.

No dia seguinte, fomos passear com ele no jardim da Madre Leônia. Passava por ali uma moça, que ao vê-lo proferiu o seguinte comentário:

“Nossa, que Cisquinho!”

Até aquele momento, o cão não tinha nome. Dali em diante passou ser o Cisco. Oficialmente, na ficha do veterinário, é Francisco, mas ninguém o chama assim. Se tivesse o dom da fala (e ele quase tem), poderia dizer como o Agente 007: “Meu nome é Cisco, Fran Cisco”.

Não sabíamos, mas a chegada do Cisco era um anúncio em nossas vidas. Uma semana depois que ele chegou, a Rosângela descobriu que estava grávida do Pedro. Durante os nove meses de gravidez, ele foi um fiel guardião do nosso filho tão esperado. E permaneceu guardião depois do nascimento do Pedro: montava guarda diante do berço e soltava uivos de alerta quando o bebê chorava. Até hoje Cisco e Pedro são grandes amigos.

Todas as manhãs eu passeio com o Cisco. Assim que o Sol se levanta, ele vem me chamar. Creio que, somados, meus passeios com ele equivalem a uma peregrinação de ida e volta ao Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, no México. Durante os passeios, eu rezo. Um célebre neurologista, o Dr. Charcot, dizia que a verdadeira função do corpo é levar o cérebro para passear. Talvez a função do Cisco em minha vida seja equivalente: ele é que me leva, não sou eu que o levo.

E até aconteceu o inesperado. Graças aos cuidados da minha sogra, Dona Elia, o Cisco deixou de ser um cachorro feio! Eu não diria que ele se tornou um cão de vencer concursos de beleza, mas certamente está bem mais apresentável: gordinho, o pelo bem cuidado, o rabo esvoaçante.

Obrigado, Cisco, por tudo que você fez e faz por nós. Eu não sabia, mas naquele dia chuvoso estava ganhando um dos meus melhores presentes de aniversário.

Article source: https://www.folhadelondrina.com.br/colunistas/paulo-briguet/dez-anos-esse-cachorrinho-2950717e.html

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