16 de June de 2019

Crítica | No Velho Arizona

PLANO CRITICO NO VELHO ARIZONA CISCO KID

No Velho Arizona (1928) tem como mérito dois grandes marcos para a História do Cinema. Ele foi o primeiro filme sonoro a ser gravado fora dos estúdios (e o primeiro grande western a utilizar a tecnologia do som), fazendo amplo uso de locações icônicas como o Parque Nacional de Bryce Canyon e o Parque Nacional de Zion, além de ótimas cenas na Missão de San Juan Capistrano e no Deserto de Mojave. Além do inovador aspecto sonoro, In Old Arizona também contribuiu para a criação do estereótipo do cowboy cantor no cinema, algo que não demoraria muito para se tornar uma febre e seria incorporado, de diversas formas, em centenas de faroestes nas décadas seguintes.

Com roteiro de Tom Barry, esta produção da Fox tem como premissa o conto The Caballero’s Way (1907) de O. Henry, a história que nos trouxe pela primeira o personagem Cisco Kid. Nas telonas, este herói mexicano com pitadas de Robin Hood, cinismo e um pouco de crueldade já tinha sido interpretado por William R. Dunn em The Caballero’s Way (1914) e por Vester Pegg em The Border Terror (1919), mas foi aqui em No Velho Arizona, sob interpretação de Warner Baxter — interpretação que lhe rendeu um Oscar, apesar de bastante carregada — que o personagem acabou ganhando grande destaque, recebendo um considerável número de versões, especialmente na década de 1940.

Mas não era para Baxter ter assumido este papel. Na grade de produção original do filme, quem daria vida a Cisco Kid e quem dirigiria o filme seria Raoul Walsh (recém-saído de Sedução do Pecado, que conseguiu duas indicações ao Oscar). O diretor e ator chegou a filmar algumas poucas sequências de planos gerais e fugas, mas o acidente de carro que lhe custou um olho o afastou definitivamente da produção, também colocando fim à sua carreira de ator. A partir de então, Walsh estaria apenas atrás da câmeras. Em seu lugar, foi escalado Irving Cummings para a direção e Buddy Roosevelt para o papel principal do filme, mas o ator quebrou a perna antes de começar as filmagens e foi só aí que Warner Baxter ganhou o icônico papel.

Tendo um estilo absolutamente oposto ao de Walsh, Cummings guiou a fita como um faroeste marcado por dramas morais (especialmente no arco da mulher maquiavélica, interpretada por Dorothy Burgess) e explorando a ação e a traição feita a Cisco Kid como uma sugestão par ao clima geral, inclusive no desfecho da obra, com todo o sabor de anticlímax possível. Todavia, o que o diretor faz muito bem é aproveitar-se dos cenários, sempre conseguindo excelentes planos e logrando uma boa dinâmica de movimento de personagens, tendo que sujeitar-se às limitações vindas pelo fato de haver microfones escondidos em vários cantos do set, a fim de que o som ambiente fosse bem captado. A excelente direção de arte e a escolha acertada das locações fizeram com que o filme tivesse um aspecto visual aplaudível, muitas vezes sobressaindo-se à história, mesmo que esta não seja ruim.

A grande atenção dada ao elemento de conquista traidora encarnada por Tonia Maria, no seu jogo amoroso entre Cisco Kid e o Sargento Mickey Dunn (Edmund Lowe) torna muitas cenas da obra maçantes, além do preço moral que isso tem para a personagem no final, o que não necessariamente depõe a favor do roteiro. Sem nenhuma ajuda da montagem (o pior elemento técnico da obra), o enredo consegue se sustentar até certo ponto da narrativa. O que podemos dizer dele é que existe um bom número de cenas cômicas e cheias de sugestões sexuais ou outras insinuações maldosas que claramente marcam o longa como uma produção pré-Código Hays, com suas limitações comportamentais e ideológicas. No fim, Cisco Kid abraça um destino solitário e parte após o grande final, uma atitude que conhecemos muito bem desses heróis do Velho Oeste e sua trágica e perigosa solidão.

No Velho Arizona (In Old Arizona) — EUA, 1928
Direção: Irving Cummings (algumas cenas dirigidas por Raoul Walsh)
Roteiro: Tom Barry (baseado em The Caballero’s Way, de O. Henry)
Elenco: Warner Baxter, Edmund Lowe, Dorothy Burgess, Henry Armetta, James Bradbury Jr., Joe Brown, Frank Campeau, John Webb Dillion, Alphonse Ethier, Jim Farley, Pat Hartigan, Soledad Jiménez, Ivan Linow, Tom London, Helen Lynch, J. Farrell MacDonald, James A. Marcus
Duração: 95 min.

Article source: https://www.planocritico.com/critica-no-velho-arizona/

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